Páginas

terça-feira, 30 de abril de 2013

O Samba de S. Paulo está de luto: morreu Paulo Vanzolini


 Paulo Vanzolini

Está de luto o samba de São Paulo. Morreu Paulo Vanzolini, um dos seus maiores representantes, autor de Ronda, Volta por Cima, Na Boca da Noite, Praça Clóvis, Alberto, Capoeira do Arnaldo, dentre outras cerca de  setenta composições.

Está de luto também a comunidade acadêmica pois Vanzolini era um cientista, doutor em Zoologia, considerado o maior zoólogo da Capital,  tendo sido diretor do Museu de Zoologia da USP onde atuou por mais de 40 anos. Foi um dos idealizadores da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de S. Paulo). Recebeu numerosos prêmios como o da Fundação Guggenhein, em Nova York, em 2008. Escreveu mais de 150 artigos acadêmicos, dois livros sobre zoologia, um que é um resgate de trabalhos de naturalistas estrangeiros que estudaram a fauna brasileira no século XVII, produziu 3 documentários, etc.

“...cientista e boêmio irreverente cheio de disciplina e rigor de homem da noite que faz do dia seu espaço de trabalho [...] Viva pois esse Paulo poeta compositor cientista boêmio conversador que soube fixar tão bem pela arte momentos significativos da vida” Disse o literato Antonio Cândido


Lembrando a poética e a filosofia de vida de Vanzolini:

Chorei, não procurei esconder / Todos viram, fingiram/ pena de mim não precisava / Ali onde eu chorei / qualquer um chorava / Dar a volta por cima que eu dei / Quero ver quem dava/ Um homem de moral não fica no chão / nem quer que mulher venha lhe dar a mão / Reconhece a queda e não desanima / Levanta sacode a poeira / Dá volta por cima.  (Volta por cima)

sábado, 6 de abril de 2013

A Índia, o bebê e o porquinho do mato

Da cultura dos índios Guajá

A índia Guajá, o bebê e o porquinho do mato


Existe maior compromisso com a Natureza e a vida do que um gesto como esse?

 

Com o filho Tamataí no colo, a índia Huyra amamenta um filhote de porco-do mato, repetindo um hábito dos Guajá de tratar como crianças os filhotes de animais que matam.    

                                                          (Folha de S. Paulo, 20/12/1992)

 

        Acontece assim: alguém da tribo caça um animal e percebe que é uma fêmea e tem filhotes. Os “bebês” morrerão de fome se ficarem abandonados no mato. Ou poderão ser comidos por outros bichos.  Eles são então levados para a aldeia e as mulheres que estão amamentando também os alimentam.

        Simples assim. Sem discurso de ambientalistas, ecologistas, sociedades protetoras de animais ou repórteres de televisão.       Apenas a visão de mundo de seres humanos que cuidam da Natureza porque ela lhes dá a vida.

 

        Guajá é uma etnia indígena brasileira que se auto-denomina Awá, palavra que significa Homem, Pessoa ou Gente. Começou a ter contato permanente com o homem branco a partir de 1973 e habita o noroeste do Maranhão nas Terras Indígenas do Alto Turiassu e TI Caru, compartilhadas pelos Ka´apor, Timbira e Guajajara.

        Mais ao sul, nas TI (significa Terras Indígenas) Arariboia, foram avistados outros grupos de Guajá, estes arredios,  em acampamentos abandonados. Sabe-se de  outros mais distantes ainda, também sem contato com o branco, que se movimentam pelas serras e chapadas que ligam Maranhão, Tocantins, Goiás, Piauí, Bahia.

        A classificação lingüística dos Guajá é Tupi-guarani portanto do tronco Tupi. Sua população hoje é de cerca de 230 indivíduos vivendo em quatro comunidades aldeadas pela FUNAI; e acredita-se que cerca de 30  deles são os que habitam as florestas, em completo isolamento.

        Agricultura itinerante, caça e pesca são suas atividades de sustentação. Plantam mandioca, arroz, milho, batata doce, cará, banana, melancia, laranja e fazem muito uso do babaçu.

        Em sua organização social,  ao longo da vida, homens e mulheres podem ter vários matrimônios.

        Eles praticam um ritual chamado “viagem para o céu” (ohó iwa-beh),  em noites de lua cheia. Os homens são preparados pelas mulheres com enfeites de plumagem de aves e cantam e dançam ao redor da takaia, construção preparada no descampado da aldeia. Depois entram na takaia, um de cada vez e continuam dançando e batendo fortemente os pés no chão. Com o impulso deste forte movimento, sobem ao céu onde encontram os antepassados e outras entidades espirituais com  as quais interagem.  Retornam à terra “incorporados” e vão, dançando, ao encontro das mulheres e familiares que abençoam com sopros. As mulheres não “viajam” mas têm participação importante: pedem que eles voltem ao céu e tragam de lá entidades específicas para as consultas ou para a cura.       No momento deste ritual, o homem torna-se o elo de ligação entre o mundo dos espíritos e o mundo físico do cotidiano da comunidade.

        Os Guajá foram estudados pelo etnólogo paraense Louis Carlos Forline, da universidade Federal do Pará e do Museu Emílio Goeldi, que fez das suas pesquisas a tese de doutoramento The Persistence and Cultural Transformation of the Guajá Indians, aprovada pela Universidade da Flórida, em 1997. Ele tem obras publicadas sobre o tema.

        Para maior conhecimento,  vejam:



 

       

       

 

quarta-feira, 3 de abril de 2013

domingo, 31 de março de 2013

É TEMPO DE AMOR - modinha de Guerra Peixe

Esta partitura é para Sandro Bodillon, um dia um jovem e promissor estudante do curso de Canto Lírico e então meu aluno de História da Música e Folclore, na Faculdade de Música Carlos Gomes. Hoje um profissional respeitado e competente, na época cantou essa peça e eu o acompanhei ao piano. A seu pedido eu a posto aqui.É uma peça difícil de ser encontrada no mercado. Ao mesmo tempo constitui uma lembrança gostosa de um bom e amigável relacionamento acadêmico.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Rabeca, o violino folclórico

Rabeca é o violino folclórico. Sua performance pode ser em solo, em grupos instrumentais ou acompanhando o canto. Tem quatro cordas, geralmente afinadas por quintas (sol, re, la, mi) ou três cordas ativas e a quarta vibrando por simpatia. As cordas são friccionadas com arco de crina ou fios de cauda de cavalo untados com breu. Tem som fanhoso, meio áspero e é encontrada também acompanhando o acervo poético cantado no nordeste brasileiro. É comum o instrumentista, na execução do instrumento, ao contrário da posição habitual do violino, deitá-lo ao longo do braço esquerdo mantendo a caixa junto ao peito e o braço voltado para baixo. Ver exemplos em vídeos na Internet nos endereços abaixo (disponíveis em 06/06/12). http://www.advivo.com.br/blog/fernando-augusto-botelho-rj/instrumento-com-estilo-rabecahttp://www.advivo.com.br/blog/fernando-augusto-botelho-rj/instrumento-com-estilo-rabecahttp://www.advivo.com.br/blog/fernando-augusto-botelho-rj/instrumento-com-estilo-rabecavvv A rabeca tem uma simbologia tradicional que é quase uma alegoria à imagem de Jesus crucificado: as cordas representam o corpo de Jesus distendido sobre o lenho (representado pelo braço do instrumento) e o arco completa a cruz como os braços abertos de Cristo, porém ferindo-o no peito. Outra simbologia forte da rabeca refere-se às cordas de tripa de carneiro, uma vez que Jesus é o cordeiro de Deus. Mitos e acontecimentos lendários cercam a história da rabeca. Na Europa feudal era muito conhecida a narrativa sobre Jehan Blondel, menestrel e pajem do rei da Inglaterra Ricardo Coração de Leão que, tocando sua rabeca, salvou o soberano aprisionado na torre do castelo de Durrenstein, e vigiado noite e dia, por ordem do rei da Áustria. No papel de cantor ambulante, Blondel percorreu castelos da Áustria cantando canções conhecidas pelo rei que, um dia, respondeu do alto torre. O jovem voltou à Inglaterra e revelou a localização do cativeiro. No ano seguinte, 1194, o rei foi resgatado (CASCUDO, 1969). O instrumento é às vezes o ganha pão do rabequeiro. O cego Sinfrônio Pedro Martins, tocador nordestino famoso, assim louva sua companheira fiel: Esta minha rabequinha É meus pés e minhas mãos, Minha foice e meu machado, É meu mio e meu feijão, É minha planta de fumo, Minha safra de algodão. (CASCUDO, 1969, p. 518)

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Liliana Bollos convida para o lançamento do CD DEZ ARRANJOS de Fernando Correia

Caros amigos, gostaria de convidá-los para o lançamento do CD DEZ ARRANJOS do Fernando Corrêa Combo na próxima quinta-feira, e aproveitando este e-mail para divulgar nossos próximos eventos. Ouçam o novo arranjo de Fernando de “Blues for Jim” com a Orquestra Jazz Sinfônica, cuja primeira gravação participei (CD Em contraste está em seu site www.fernandocorrea.mus.br para download). Grande abraço, Liliana Dia 30/8 - Lançamento do CD Dez Arranjos do Fernando Corrêa Combo no Jazz nos Fundos, quinta-feira, 22h Dia 02/9 – Lucas Bonetti Octeto convida Fernando Corrêa no Centro Cultural Rio Verde, domingo, 14h. Dia 03/9 - Palestra "Bossa nova: um sopro de renovação na cultura brasileira" na Semana de História, FACCAMP, 19:30-22:30h. Dia 07/9 – Quarteto Impossível. Ao Vivo, 20:30h. Dia 25/9 – Liliana Bollos piano solo no projeto Música de bandeja no SESC Pinheiros, terça-feira, 12:30-14h. "Blues for Jim" (composição e arranjo Fernando Corrêa) - Orquestra Jazz Sinfônica dia 06/06/2012, SESC Pinheiros. http://www.youtube.com/watch?v=PXFjjlwaCeA&list=UUX0u2NdzRpNRuZGlntIn4EQ

sábado, 14 de abril de 2012

História do Folclore

História do Folclore
Folk = povo Lore = sabedoria
Folklore = sabedoria do povo

Sabedoria do povo sempre existiu, em todo o tempo e lugar. Mas foi no século XVIII que se estabeleceu uma filosofia, uma forma de pensamento que permitiu se considerar como valor essencial todo esse acervo de conhecimentos que abrange: crença, moral, usos e costumes. linguagem, literatura, mitos, arte, medicina, superstições, agricultura, caça, pesca e outros.
Historicamente, as doutrinas que levaram ao reconhecimento da importância da sabedoria popular, se devem a três grandes filósofos ( que foram precedidos por Montaigne, 1533/1592):
* Gianbattista Vico ( Nápoles, 1668-1744) - contrário ao racionalismo de Descartes, esboça, a primeira filosofia da História: civilizações começam com a idade dos deuses, depois dos heróis, depois do homem; aí, retrocede à barbarie (antecipa Herder, Hegel e a teoria das três fases de Comte ). Reconheceu o valor da poesia popular antecipando o gosto do pré-romantismo. Expôs suas idéias na obra Sobre a Mais antiga Sabedoria dos Itálicos , de 1710. Em Scienza Nuova afirma que a História se faz pela sabedoria popular.
* François Marie Arouet Voltaire ( Paris, 1694-1778). Insistiu no valor dos costumes, na formação dos povos. Em Essai sur les Moeurs , de 1758, reclamava o interesse da História pela vida cotidiana - comidas e bebidas, vestuário, casas, costumes. Não só falar de reis, batalhas, vitórias, e sim do povo, do homem desconhecido, o construtor de todas as coisas.
* Jean Jacques Rousseau ( Genebra, 1712-1778). Fez a apologia do homem da natureza; o progresso das ciências e das artes só corrompe os costumes, pois delas provêem os vícios.O homem feliz é o homem da natureza, onde reina a igualdade. Com essa idéia, Rousseau sacudiu a sociedade e deflagrou a Revolução Francesa, assentou as bases da democracia e criou o Romantismo.
Ainda se deve considerar o alemão, escritor e filósofo, Herder (1744-1803) que observou o sentido da criação popular na poesia e na língua: voz pura que ressoaria depois na obra dos grandes artistas. Na língua, o dinamismo com que se manifesta a inspiração do povo.
Artistas como Goethe: única poesia veradeira é a do povo; Shakespeare, inspiração nas estórias contadas pelo povo. Em D. Quixote, Cervantes faz repercutir nos provérbios a imensa sabedoria popular.
Três grandes livros emocionaram e, com isso, também contribuíram para a valorização da sabedoria popular: os Contos de Perrault (1697), “As Mil e Uma Noites” (1704-1717) e os Poemas de Ossian (1760). (Ossian foi herói e poeta mitológico escocês do séc. III; ficando cego, cantou os feitos de sua família e do seu povo.)
São todos precursores do Romantismo, esses que anteviram a riqueza e a importância do folclore. Mas foi no séc. XIX, já em plena florescência do Romantismo, e dentro do seu espírito, que se empreendeu a primeira pesquisa, no caso da literatura oral, pelos pioneiros germânicos, os irmãos Grimm, Jacob ( 1785-1836) e William (1786-1859). Eles coletaram contos, lendas, mitos, e ampliaram a pesquisa para vários outros setores do conhecimento humano.
O estudo da sabedoria popular passou a fazer parte do estudo das culturas ( deixou o plano histórico). Já não era suficiente saber como foi no começo, mas sim como era no presente, porque existia e como funcionava. Percebeu-se o seu potencial de energia e força e sua relação direta com as maneiras de sentir e encarar a vida.
O Romantismo foi o grande momento para a floração do folclore e folclore como ciência é um produto do Romantismo.
E é neste momento que o arqueólogo inglês William John Thoms torna-se responsável pelo uso da palavra folklore para definir a cultura proveniente da sabedoria do povo, e pelos estudos mais sistematizados do que se chamou a princípio “antiguidades populares”, hoje folclore.
William John Thoms era um arqueólogo inglês nascido em Westminster em 1803. Desde a juventude dedicara-se ao estudo das “antiguidades populares”; foi fundador de uma revista , “Notas e Perguntas”para intercâmbio de dados sobre literatura popular. De suas obras destacam-se “Canções e Lendas da França, Espanha, Tartária e Irlanda” e “Canções e Lendas da Alemanha.
Em 1846, usando o pseudônimo de Ambrose Merton, escreveu à revista The Atheneum, de Londres, pedindo apoio para um levantamento de dados sobre usos, tradições, lendas e baladas da Inglaterra. Sua carta publicada em 22 de agosto, registra pela primeira vez a palavra Folklore:

... Suas páginas mostraram amiúde tanto interesse pelo que chamamos na Inglaterra de “Antiguidades populares” ou “Literatura Popular”, embora seja mais precisamente um saber popular ... e que poderia ser com mais propriedade designado com uma boa palavra anglo-saxônica, Folklore – o saber tradicional do povo.

Em 1878 fundou-se em Londres a primeira associação científica para estudo do folclore, a Folklore Society, sob a presidência de William Thoms. Seu objetivo: “... a conservação e publicação das tradições populares, baladas lendárias, provérbios locais, ditos vulgares, superstições e antigos costumes e deamis matérias concernentes a isso.”
Em 1913, a Folklore Society, avançando no campo de pesquisa , definia: “Folklore estuda tudo o que constitui o equipamento mental do povo, desde que distinto da procedência técnica”. (ALMEIDA, Renato. A inteligência do folclore. 2 ed. Rio de Janeiro: Ed. Americana; Brasília: INL, 1974. 308 p.)

No Brasil

No Brasil, os estudos e o interesse pelo folclore tomaram impulso com a Semana de Arte Moderna, em 1922.
Antes, da mesma forma que na Europa com os irmãos Grimm, Sylvio Romero (1851-1914), um professor, jurista, filósofo, jornalista, crítico literário, representante da famosa “Escola do Recife” (literária) empreendeu importante coleta de literatura popular e
fez várias publicações. Destacam-se os “Cantos populares do Brasil” e “Contos populares do Brasil”.
A Semana de Arte Moderna, com a participação de escritores, artista e músicos, foi uma ação renovadora, voltada para os nossos próprios valores nacionais, enfatizando a cultura popular como fonte de inspiração nacionalista. Até essa época, o costume era copiar os acadêmicos europeus.
Houve, em determinado momento, uma divisão de interesses: os artistas e os ficcionistas, passaram a fazer aproveitamento da temática folclórica em suas obras. Os estudiosos, empenharam-se em procurar orientação científica, a partir da pesquisa, para um estudo sistemático do folclore brasileiro.
Os estudiosos que se destacaram foram, principalmente: Mário de Andrade ( 1893-1945), um dos mentores de todo o movimento. Destacado intelectual, foi escritor, poeta, músico, pianista, crítico literário, professor, pesquisador de música folclórica, incentivador da pesquisa científica, com numerosas obras de coleta publicadas.
Na área do folclore, na mesma linha, segue-se Renato Almeida, escritor, músico, teórico de folclore, que criou a Comissão Nacional de Folclore sob auspícios do IBECC ( órgão da UNESCO: Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura) e as Comissões Estaduais que passaram a estudar e divulgar o folclore de todas as regiões do país. Renato Almeida publicou, em 1942, uma obra magistral abrangendo a história da música brasileira, erudita, popular e folclórica: História da Música do Brasil.
Aluno de Mário de Andrade, outro teórico do folclore, da mesma escola e mesma linha de pesquisa, é Rossini Tavares de Lima, fundador do Museu de Folclore (em 1954) que dirigiu por 40 anos e que hoje leva o seu nome. Também músico, escritor, jornalista, professor emérito, pesquisador, tem obras publicadas que são referências para o estudo da matéria. Foi dono, juntamente com Julieta de Andrade, da Escola de Folclore, especializada no ensino e pesquisa, e que funcionou no Museu até sua morte, em 1987. Aí formou-se grande número de especialistas que hoje lecionam folclore por todo o Brasil., na linha da pesquisa iniciada por Mário de Andrade.





Bibliografia
ALMEIDA, Renato. Inteligência do Folclore, 2ed. Rio de Janeiro: Americana/Brasília, 1974
LIMA, Rossini Tavares de. A Ciência do Folclore. São Paulo: Ricordi, 1978

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Mosaicos: Arte, Cultura e Educação



FOI LANÇADO O LIVRO
MOSAICOS: ARTE, CULTURA E EDUCAÇÃO
Em 27/10/2011

Com a organização de Francisca Eleodora Severino e Sonia Albano de Lima, o livro é uma coletânea de artigos de docentes e especialistas nas três áreas cujos nomes constam do cartão anexo.

Participei da coletânea com o estudo Música étnica africana: uma linguagem da vida.

Tivemos a honra de contar com prefácio do Professor Doutor Antonio Joaquim Severino, da Faculdade de Educação da USP.

O local do lançamento foi o Auditório I - Bloco B - 3º andar da
Universidade do Grande ABC ( UniABC)
Endereço: av. Industrial, 3330, Bairro Campestre, Santo André, SP

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Do livro MOSAICOS: Arte, Cultura e Educação

MOSAICOS: Arte, Cultura e Educação é uma coletânea de especialistas nestes temas da qual participei com o estudo Música étnica afriacana: uma linguagem da vida.

Francisca Eleodora S. Severino e Sonia Albano de Lima são organizadoras.
O prefácio é do Professor Dr. Antonio Joaquim Severino

Autores, pela ordem de entrada: Sonia Albano de Lima, Flávio Apro, Niomar de Souza Pereira, Francisca Eleadora S. Severino, Fernanda Verdasca Botton, Ana Gracinda Queluz & Maria Lúcia Vasconcelos, Vitória Kachar, Ana Lucia Nogueira Braz.
Apresentação de Francisca E. Severino e Sonia Albano de Lima:

Arte, cultura e educação compõem os mosaicos que, neste livro, representam a imaterialidade do pensamento humano. Este universo diversificado é consolidado e integrado pela interdisciplinaridade que conecta os segmentos isolados do conhecimento em um todo coerente. Nenhum dos capítulos trata da arte, da cultura e da educação de forma isolada. As áreas estão integradas sem que haja uma hierarquia cognitiva e é o olhar do leitor que determinará seu próprio trajeto.

Os três capítulos iniciais fundamentam-se na música mas a visão dos autores se reporta também à cultura e à educação. Sonia Albano de Lima escreveu A dimensão da linguagem musical com reflexões sobre a relação da música com outras linguagens, em particular a verbal própria para as relações do ensinar e do aprender. A inquietação que conduz sua reflexão é : “que utilidade o ensino acadêmico da música teria para a formação humana considerando-se que ela não expõe teorias sobre o mundo e nem transmite informação como faz uma linguagem verbal?” Reporta que o ensino da música como disciplina é uma possibilidade, não uma certeza de aplicabilidade e o seu emprego em sala de aula pode ser abordado com outra linguagem musical passível de se realizar enquanto arte.

Flávio Apro, autor de Origens e transformações do tema Folias de Espanha através da história, capítulo seguinte, dá ênfase à questão do eterno retorno e das mutações do tema musical Folias de Espanha ao longo da história da música, recorrente em várias tradições e culturas por mais de cinco séculos. De Corbetta (1648) a Kubrick (1975), passando por Bach, Beethoven e Liszt, entre outros, permanece entre nós até nas manifestações do cotidiano por meio do cinema e da publicidade. O estudo contribui com pesquisas musicológicas e oferece subsídios a educadores que lidam com ensino formal e não formal de música.

O terceiro capítulo referente à música é Música étnica africana: uma linguagem da vida, de Niomar de Souza Pereira. Contempla a diversidade cultural de uma extensa tradição musical dos povos africanos cujo aparato, em vozes e instrumentos, não se dissocia do seu peculiar contexto sócio-cultural, eivado de tradições. A Etnomusicologia, estudo da música na cultura (Alan Merrian, 1964), é a linha teórica a que a autora se atém. Ela informa que “ a Etnomusicologia abrange dois campos: o musicológico – das estruturas musicais – e o etnológico – do significado humano da música em seu contexto sócio-cultural”.

A coletânea desenvolve-se com dois textos que discutem os fundamentos da estética contemporânea. Francisca Severino, no capítulo A vocação libertadora da arte, uma aproximação à luz da hermenêutica benjaminiana, ressalta a fecunda colaboração de dois autores de tradição marxista, Walter Benjamin, com os conceitos de Alegoria e Hermenêutica, e Lukács, na abordagem do conceito de Símbolo. Trata da especificidade filosófica do reflexo estético sob sua impregnação existencial, e de que forma a estética se diferencia de outros modos de apreensão do real; e dos diversos modos de comportamento que daí derivam. Embora divergindo em muitos pontos, os dois autores citados convergem no que diz respeito à vocação emancipadora da arte.

Fernanda Verdasca Botton, em Bernardo Santareno e as fronteiras entre Nazismo e a Super-Humanidade pensada por Nietzsche, discute as fronteiras entre os conceitos filosóficos nietzscheanos e uma estética típica de regimes totalitários na obra teatral de Bernardo Santareno, dramaturgo português do período salazarista.Chama a atenção para uma leitura tendenciosa e equivocada da obra de Nietzsche, refletida por Hitler no nazismo, e na ação dos personagens Orfeu Wilson e Eurídice Oliver na peça de Santareno, para justificar a matança de uma criança judia, uma negra e um adolescente homossexual. O capítulo é um alerta a educadores e aqueles que lutam pelas conquistas democráticas em busca de uma sociedade mais justa e igualitária.

Dos três capítulos que completam a coletânea, dois privilegiam as manifestações culturais que se constroem mediante imagens cinematográficas e fotográficas e o terceiro contempla o sentido do amor nas relações humanas.
Em Tempo e conhecimento: narrativa cinematográfica, Ana Gracinda Queluz e Maria Lucia Vasconcelos tratam da imagem do professor no discurso cinematográfico bem como da influência desse discurso na sua formação. As autoras privilegiam três linhas, pela especificidade de conhecimentos que contém: o conhecimento, a narrativa e o tempo. Tais linhas se dispõem de tal maneira que, ao juntar-se, se predispõem a compor um desenho novo, harmônico e articulado.

No capítulo O retrato fotográfico na autobiografia escolar, Vitória Kachar dá continuidade à reflexão sobre o uso da imagem como recurso pedagógico nas relações do ensino e aprendizagem exercitando o emprego de várias linguagens e tecnologias da informação e comunicação no contexto educacional. A fotografia, detentora de significado para uma pessoa e percebida em suas características peculiares, adquire um novo sentido a partir da rememoração.

O tema do amor nas relações cotidianas encerra a coletânea por permear as relações de reciprocidade e cooperação necessárias ao trabalho interdisciplinar de profissionais procedentes de diversas áreas do saber. O significado do amor na cultura e na educação ocidental é o tema desenvolvido por Ana Lucia Nogueira Braz, cujo objetivo é desvelar a real contribuição do amor nas relações sociais e na escola para a superação de múltiplas formas de violência real ou simbólica que permeiam a sociedade. A autora historia os pensadores que legaram contribuições substanciais ao tema e desvela facetas de filósofos como Platão, Rousseau, Kant, dentre outros que fundamentaram a pedagogia de Pestallozi, autor destacado e cuja obra não foi adequadamente desenvolvida à luz das novas conquistas humanas.

domingo, 4 de setembro de 2011

OSESP ao vivo pela internet

A OSESP inaugurou novo serviço para os freqüentadores da Sala S.Paulo e para o público em geral que gosta da música erudita: a transmissão de concertos ao vivo pela Internet. Basta acessar o site http://www.concertodigital.osesp.art.br na hora do evento.
É uma iniciativa democrática que disponibiliza a excelência da orquestra, dos maiores artistas nacionais e internacionais e os repertórios do mais alto nível (não esquecendo a música contemporânea) a um público que muitas vezes, mesmo gostando, não tem condições ou o hábito de freqüentar a sala de concertos.
A estréia se deu no dia 27 de agosto de 2011, às 16:30h, com programa regido pela maestrina norte-americana Marin Alson, que assumirá a direção da OSESP a partir de 2012. As obras apresentadas foram a quinta sinfonia de Prokofiev e o concerto para violino do austríaco Erich Wolfgang Korngold (1897-1957). O solista, um dos mais destacados violinistas da atualidade, o francês Renaud Capuçon, tocou em um legendário violino Guarneri Del Gesù “Panette”, de 1737. Segundo Capuçon, “Korngold é subestimado porque teve de mudar para os Estados Unidos devido ao nazismo, trabalhou em Hollywood e a pecha de autor de música de cinema prejudicou a recepção de suas obras”e a peça executada “é uma obra prima que mescla seu passado vienense e citações de trilhas sonoras” (declarações a Irineu Franco Perpétuo, Folha de S. Paulo, 27 de agosto de 2011).
Eu assití ao concerto e achei a regente Marin Alson muito segura, serena e capacitada para extrair da orquestra o melodismo de Korngold e virilidade percussiva de Prokofiev.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011


Alban Berg – carta à sua noiva “Borghof, 23 de agosto de 1909.

Amada:
Indagas em tua carta: Para onde vamos? Que é o que aqui nos parece como a meta, o aonde?
Não são os títulos e honrarias e condecorações e tumbas de glórias por mim superados e desprezados há muitíssimo tempo e que nada importam, que podem chegar ou não; não ergueremos as mãos para isso, sua falta nos comoverá tão pouco, nos importará tão pouco como sua chegada!
Por outro lado, todavia, existe uma meta, um aonde para nós e, se ainda não o tiverdes reconhecido de todo, encontras-te no caminho de achá-lo. Trata-se do caminho que abandona à margem todas as metas mundanas, exteriores, que conduz, subindo, até a perfeição de nossas almas, para o verdadeiro ser do homem, para a única justa, desejável, suprema, ideal existência.
Porque quanto mais penso aproximar-me da meta, quanto mais subo, melhor reconheço quanto e quão longe hei de peregrinar ainda para atingir o cume da montanha que parecia tão fácil de ser alcançado, visto do vale de nossa ínfima existência.
Até que cheguemos a altura em que apenas moram os mais nobres e podem ser criados – unicamente ali – um Parsifal [de Wagner], uma Nona [sinfonia de Beethoven], um Fausto, uma Pippa [ comédia E Pippa Dança, de Hauptmann], e outras poucas obras supremas: o Apocalipse, as Sínteses. Indiferente se avaliada em obras ou em uma vida da alma. O aonde adquire então a maior, a única importância; é o além, de Nietzsche, que o compara – em sua linguagem cheia de imagens – aos novos mares para os quais irresistivelmente se encaminha sua genovesa nave. Lamento não o ter à mão, quisera citá-lo nesta suprema e maior questão, convencer-te-ia mais do que com minhas contemplações. Uma coisa, porém, sei com toda segurança, apesar de tudo e não precisando para isso de nenhum Nietzsche e de nenhum filósofo do mundo: que este caminho para os novos mares ou para os mais elevados cumes deixa de lado todas as mesquinhas metas do mundo, deste minúsculo mundo, a vista fixa ... no ideal de ser um homem justo, bom, nobre.
Oh, Helene, não queremos palmilhar juntos este caminho? Eu contigo, tu comigo?
Mão na mão, alma com alma, de tal maneira que a pergunta de Rosmersholm [drama de Ibsen] assoma a nossos lábios: Não sei se vou contigo ou vais tu comigo?...”

Alban

Esta carta foi escrita por Alban Berg, aos 24 anos, à sua futura esposa Helene. Revela uma prematura maturidade ao reconhecer, além do aplauso ou reconhecimento das multidões, os verdadeiros valores da vida e da arte. Tal postura reflete-se na obra deste período. A referência bibliográfica desta carta é a seguinte:
PAHLEN, Kurt. Amada imortal; o mundo íntimo de grandes músicos através de 300 cartas de amor. São Paulo: Melhoramentos, 1962.

Alban Berg era austríaco, nasceu em Viena em 1885 e morreu em 1935. Fez parte da tríade que revolucionou a música no início do século XX, com a chamada Segunda Escola de Viena, junto com Anton Webern e Arnold Schoenberg, de quem foi aluno. Estes compositores foram responsáveis pela ruptura com o sistema tonal e a introdução do atonalismo com a técnica dos doze sons ou dodecafônica. A obra de Alban Berg não foi numerosa mas destacou-se pelo esmero no acabamento. Emblemática é a ópera Wozzeck , cuja encenação em 1925, em Berlim, causou sensação e pode ser considerada um dos pontos altos da música moderna. Sua preocupação com a forma escondeu muitas vezes o lado lírico de sua natureza. Utilizou a técnica dodecafônica com muito senso artístico enriquecendo-a com recursos líricos e dramáticos.
Alban Berg foi um dos mais importantes compositores do século XX.
Para ouvir Wozzeck, acessar:

http://www.radio.uol.com.br/#/album/alban-berg/wozzeck-wierner-staatsopernchor-e-wiener-philharmoniker-feat-conductor

sexta-feira, 29 de julho de 2011

XV CONGRESSO BRASILEIRO DE FOLCLORE


XV CONGRESSO BRASILEIRO DE FOLCLORE
Da Comissão Nacional de Folclore
Comissão Paulista de Folclore
Abaçaí Cultura e Arte OS

O XV Congresso Brasileiro de Folclore teve como tema HISTÓRIA E FOLCLORE, CAMINHOS QUE SE ENTRECRUZAM. Aconteceu em São José dos Campos, nos dias 11 a 15 de julho de 2011
Constavam da programação:
Mesas redondas como: Políticas públicas para o patrimônio Imaterial
Folclore e Comunicação
Folclore na Era Digital
Convenção da Diversidade
Cultura Tradicional e Sustentabilidade
A Música Tradicional em todos os Tons
E outros
Cursos para professores
Grupos de trabalho
Oficinas e Vivências
Exposições de fotos
Painéis
Exibição de Documentários
Salas de dança em atividade permanente

A Comissão Nacional de Folclore, criada em 1947, ligada ao IBECC (Instituto Brasileiro de Educação Ciência e Tecnologia, órgão da UNESCO) coordena atividades em folclore nos estados brasileiros por meio das Comissões Estaduais. Promove congressos periódicos, realizados a cada vez em uma região diferente, reunindo folcloristas de todo o país.

O XV Congresso reuniu mais de cem folcloristas dentre especialistas, mestres, professores de todos os níveis e estudantes de diferentes estados. A presença dos estados nordestinos foi notável. Contavam-se também pessoas interessadas em folclore assim como artistas plásticos, músicos, dançarinos.

Fui convidada a participar da mesa redonda A MÚSICA TRADICIONAL EM TODOS OS TONS. Faziam ainda parte da mesa Carlos Sandroni, da Universidade Federal de Pernambuco e Alberto Ikeda, da UNESP. Minha exposição teve como título UMA LEITURA INTERDISCIPLINAR DOS INSTRUMENTOS MUSICAIS FOLCLÓRICOS BRASILEIROS. Um título auto-explicativo. Para ilustrar, preparamos um filme sobre os instrumentos musicais que foi idealizado por mim, por Sonia Albano e Liebe Lima, nossa ex-aluna na Faculdade Carlos Gomes. Liebe, especialista em video para Internet, tem sensibilidade e criatividade e muita técnica. Sonia Albano já idealizou outros filmes com finalidades acadêmicas. E eu forneci o texto-suporte e a maior parte do material de pesquisa, tanto visual como sonoro. Foram usadas fotos da coleção de instrumentos musicais do então Museu de Folclore, que Rossini Tavares de Lima, em vida, permitiu-me fazer para fins pedagógicos (era proibido fotografar a exposição do Museu). O filme, acredito, teve boa aceitação.

Paralelamente ao congresso, realizou-se em S. José dos Campos o X REVELANDO SÃO PAULO-VALE DO PARAÍBA, uma exposição da cultura tradicional do Vale do Paraíba, Serra da Mantiqueira e Litoral Norte de S. Paulo, apresentando artesanato, culinária, grupos folclóricos de teatro e dança, música. Faz parte do projeto mais amplo REVELANDO S. PAULO, que completa quinze anos, uma iniciativa da Secretaria de Estado da Cultura, da Comissão Paulista de Folclore e da Abaçaí Cultura e Arte e é presidido por Toninho Macedo.

sábado, 23 de julho de 2011

Morre Osvaldo Lacerda - grande perda para a música brasileira



OSVALDO LACERDA (1927-2011)

O Brasil perde um grande músico: compositor talentoso, pianista e professor que, como tal, escreveu vários livros didáticos que são obras de referência nas escolas de música.
Todas as notícias sobre ele estão na mídia: ocupou a cadeira nº 9 da Academia Brasileira de Música, foi fundador da Sociedade Pró Música Brasileira e do Centro de Música Brasileira que dirigia com a pianista Eudóxia de Barros, ex-aluna que se tornou esposa.
De 1952 a 1962, estudou com Camargo Guarnieri, seu grande mestre. Nos EUA teve aulas com Vittorio Giannini e Aaron Copland.
Obras orquestrais, para instrumentos, de câmara variada; destaque para o lied.

Escolhi lembrar Osvaldo Lacerda quando de sua visita à minha classe de História da Música no Brasil, da Faculdade de Música Carlos Gomes, em 1996, em companhia de Eudóxia. O compositor fora convidado a dialogar com os alunos, dentro do nosso projeto Um olhar sobre a música brasileira. Sua atenção, distinção, até modéstia, apesar do alto conhecimento, sensibilizou a todos. Os alunos que ainda não o conheciam, passaram a admirá-lo. Ficaram muito claros os seus argumentos, sua coerência e não intransigência na escolha da estética nacionalista. Ele disse: “ Se eu quiser escrever em mixolídio, escrevo; se quiser compor música atonal, componho; e assim por diante, sem dar satisfações para modismos ou opiniões.”
Desta palestra guardei algumas falas que depois ficaram registradas na entrevista que ele deu ao Informativo Carlos Gomes ( ano II, nº 6, mai/jun/jul-1996) boletim periódico da Faculdade. Como estas:

“Meu principal objetivo é a brasilidade espontânea com conhecimento de causa. “
“Acima de tudo é importante estar satisfeito consigo mesmo e ser sempre sincero.”
“O compositor nasce, não se faz. E a composição deve sempre sair do coração e da mente da gente.”
“A qualidade mais importante do compositor é a liberdade de pensamento”.
“Ao compositor brasileiro compete criar música de caráter brasileiro contribuindo para a universalidade com uma coisa própria. Porque Villa-Lobos é tão apreciado lá fora?”

As fotos acima foram tiradas na Faculdade Carlos Gomes, por ocasião da palestra. Na primeira, o compositor tocando piano; na outras, Osvaldo Lacerda, Eudóxia de Barros e eu, Niomar.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Kurt Weill e Bertold Brecht, parceria notável para a música dramática do século XX. E a instigante prostituta Jenny / Gení




Kurt Weill e Bertold Brecht, uma parceria notável para a música dramática do século XX. E a instigante prostituta Jenny/Geni

Eu sempre tive curiosidade de conhecer um pouco mais da relação que envolve quatro óperas conhecidas, sendo uma delas brasileira, tão erudita quanto as outras, porém criada no âmbito da cultura popular e com as liberdades que esta lhe permite. Meu foco são as obras de Kurt Weill e Bertold Brecht, a Ópera dos Três Vinténs e Ascensão e Queda da Cidade de Mahagonny. As demais, envolvidas nesta comparação são a Ópera do Mendigo, de John Gay e Pepusch, do século XVIII, e A Ópera do Malandro, de Chico Buarque. E o leitmotiv é a personagem Jenny / Geni, a prostituta execrada.
As quatro óperas têm o mesmo conceito na estrutura das peças, na caracterização dos personagens – malfeitores, assaltantes, rufiões, prostitutas- traidoras; na ambientação – um sub-mundo social; nas estórias – corrupção e exploração; e até na encenação de uma parada, na cena final.
Por incrível que pareça, ao pesquisar Weill e Brecht, encontrei até Bob Dylan, vejam só!
Kurt Weill nasceu em Dessau, Alemanha, 1900, e morreu em Nova York, 1950. Filho de um cantor litúrgico judeu, que lhe deu educação rígida e meio esnobe, era tímido e devotado à música. Na juventude quis ir para Viena estudar com Schoenberg mas, como a situação financeira da família não permitiu, foi para Berlim e estudou com Ferruccio Busoni (ítalo-germânico, 1866-1924). Em Berlim se surpreendeu com a complexa linguagem sinfônica de Mahler e o apelo popular de Strawinsky na História do Soldado. Busoni era um mago da música do início do século XX, um cosmopolita num contexto nacionalista, um pragmático quando dominava o absolutismo estético. Muito ensinou a Weill e, principalmente, a “não ter medo da banalidade” – na época, tudo o que era italiano ou francês. Weill se desenvolveu musicalmente com a abertura, a liberdade e a inovação vigentes.
Berlim, no período entre as duas guerras mundiais, era uma cidade de possibilidades ilimitadas, onde tudo era possível. Conviviam comunistas, nazistas, social-democratas, nacionalistas, com expressionistas, dadaístas, românticos anacrônicos. Era a cidade dita “sem pudor algum”.
Os jovens compositores alemães aderiam aos ritmos do Jazz, ao ruído das máquinas da indústria e se envolviam com a cultura popular. Queriam efetuar a união da música erudita com a vida moderna.
Weill desenvolveu a teoria do caráter gestual da música – o Gestus – o momento em que a pantomima, a fala e a música dão origem a um lampejo de significação. Escreveu o ensaio Sobre o Caráter Gestual da Música, em 1928.
Bertold Brecht, alemão, viveu de 1898 a 1956. Foi poeta e dramaturgo, um dos maiores autores alemães e um dos mais relevantes literatos do século XX. Para o teatro, continua a ser extremamente importante até hoje. Suas obras tem dimensão pedagógica; é contrário à passividade do espectador. Marxista, defendeu formar/estimular o pensamento crítico.
A partir de 1927, Brecht se une a Weill e juntos vão criar óperas memoráveis. Brecht apreciava os fora da lei, os corruptos, pessoas sem princípios e a crueldade, categorias exploradas na Ópera dos Três Vinténs e na Ascenção e Queda da Cidade de Mahagonny. Aliás, em Berlim e em Weimar havia uma obssessão pela figura do mau, do assassino, do malfeitor retratado na arte. (Lembre-se o cinema expressionista alemão)
A Ópera dos Mendigos ( The Beggar´s Opera) criada na Inglaterra em 1728 por John Gay e Pepusch, tem como protagonista o capitão Macheath, pessoa sem escrúpulos, conquistador de mulheres, um gênio do crime cujo caráter audacioso é o tempero da sua sorte. A ópera satiriza o interesse das classes altas pela ópera italiana, ataca estadistas, regimes corruptos e criminosos conhecidos. Macheath acaba traído pela prostituta Jenny (e outra chamada Sukey) e é condenado à morte. Foi criado como sátira dos políticos corruptos da época de John Gay. Saiba mais no site:
http://pt.wikipedia.org/wild/The_Beggars_Opera

A Ópera dos Três Vinténs é uma alegoria da Ópera dos Mendigos. Nela, o Macheath de Weill/Brecht, chamado Mack the Knife, Mack o Navalha, embora encantador é mais terrível, um psicopata que mata por prazer e por dinheiro. Jenny, a prostituta, sonha em vingar-se dos homens que a exploraram. Com a chegada de um navio de piratas, ela pede a eles que destruam essas pessoas. Há uma canção-tema que ficou famosa, conhecida como “balada do assassinato” na qual são relatados homicídios como o desaparecimento de homens ricos, sete crianças mortas num incêndio, uma jovem estuprada e a morte de Jenny Towler, com uma faca no seio.
Olhe a Jenny, aí.
A canção Mack, o Navalha, na década de 50, entrou para o repertório popular americano, ganhando variantes nas vozes de Louis Armstrong e Frank Sinatra. Armstrong, de brincadeira, acrescentou à letra da música, mais vítimas de Mack, entre outras: Jenny Diver, sweet Lucy, Lotte Lenya (cantora e amante de Weill).
Olha a Jenny outra vez...
Podemos assistir a uma apresentação de Armstrong, de 1956, cantando esta canção, acessando o site:
http://www.youtube.com/watch?v=hLIrS5dtTZI

Em 1962, foi apresentada uma revista no Theater de Lys, em Greenwich Village, Nova York, chamada Brecht on Brecht, em cuja platéia se encontrava um jovem cantor e compositor de Minnesota, Bob Dylan. Ele se encantou ao ouvir a canção “Pirate Jenny” (Pirata Jenny), da Ópera dos Três Vinténs, na qual a prostituta revela seu desejo de se vingar de seus exploradores. Dylan escreveu em sua autobiografia que os exploradores estavam ali na platéia e que não havia protesto ou crítica social e política na canção. Impressionou-o o refrão que repetia: E um Navio com Oito Velas e Cinqüenta Canhões, em que os versos lembravam a buzina de nevoeiro em Lake Superior perto de sua casa de infância. Dylan imprimiu a linha do Gestus, por influência de Weill e Brecht, em suas próximas composições, dentre elas A Resposta está soprando no Vento, Vai cair uma Chuva Forte, Os Tempos Estão Mudando.
Viram a Jenny ai?
Ouçam a canção Pirate Jenny no site:
http://www.vagalume.com.br/nina-simone/pirate-jenny.html


Em 1931, com a relação Weill/Brecht completamente desgastada, é dada a público uma obra prima da dupla: a ópera Ascensão e Queda da Cidade de Mahagonny. Conta a estória da viúva Begbick e seus comparsas, acusados de fraude e lenocínio, que estão fugindo das forças da lei quando o seu caminhão tem uma pane e pára em pleno deserto. Eles resolvem, então, fundar aí uma cidade (referência a Las Vegas). E logo chegam os tubarões: a prostituta Jenny e seus companheiros mal encarados. O vício e a corrupção prosperam, nascem fortunas. Após um furacão que quase destrói a cidade , um lenhador Jim Mahony, a princípio do bem, proclama nova lei: cada um deve fazer o que quiser. Estabelece-se a anarquia e Jim, acusado de não pagar as contas, é condenado à morte. E a cidade também chega à ruína.
O libreto de Brecht costuma ser interpretado como um protesto contra o capitalismo desenfreado norteamericano; ou também pode ser uma crítica à falsa utopia da União Soviética. No site a seguir encontram-se reproduções da ópera:
http://pt.shvoong.com/tags/ascens%C3%A3o-queda-da-cidade-mahagony/

A Ópera do Malandro, de Chico Buarque, estreada em 1987, foi inspirada na Ópera dos Três Vinténs de Weill e Brecht e atualizada para a realidade brasileira em 1940, no fim do Estado Novo. O cenário é a Lapa, bairro do Rio de Janeiro. A sociedade está repleta de empresários inescrupulosos, policiais corruptos, agiotas, empresários inescrupulosos, contrabandistas que freqüentam bares e bordéis. Há rivalidade entre o comerciante dono do bordel e o chefe contrabandista que acaba se casando em segredo com a filha do primeiro. Gení e o Zepelim constitui um quadro emblemático dentro da representação. Um belo dia chega à cidade um zepelim do qual desce um capitão que ameaça destruir a população a menos que consiga os favores de Geni, a prostituta execrada por todos. Ela se recusa e passa a ser assediada e bajulada hipocritamente pelas autoridades, pessoas importantes, todos os moradores para que aceite o capitão do zepelim. Acaba cedendo. O capitão, satisfeito, vai embora. E todo povo da cidade volta a humilhá-la, cantando: Joga pedra na Gení / joga bosta na Gení /ela é feita pra apanhar /ela é boa pra cuspir /ela dá pra qualquer um / maldita Gení.
Para informações completas e ouvir a música, acessar os vários links do Google que têm por título A Ópera do Malandro.

A Jenny, na ópera Ascensão e Queda da Cidade de Mahagonny é do lado do mal, uma das causas que levaram à destruição da cidade. Nas demais, é mais uma vítima dos contextos sociais injustos e um veículo da crítica à hipocrisia e aos preconceitos, principalmente contra a mulher.
Jenny/Gení lembra Lilith, símbolo de mulher sedutora, desafiadora e má. Consta ter sido a primeira esposa de Adão, anterior à Eva (mito do Talmud) que partiu do Paraíso para regiões ignotas por não aceitar a obrigação de se submeter ao companheiro uma vez que era feita da mesma matéria que ele. O sentimento se estendia à posição do ato sexual no repúdio ao corpo do homem sobre o seu. Consta que Lilith foi quem deu à Eva a maçã proibida.
Só para constar, no dicionário Novo Michaellis, inglês-português, 32ª ed., Ed. Melhoramentos, v. 1, encontramos o verbete: jenny - substant. comum fem. – fêmea; fêmea de animais.
Seria um preconceito contra todas as mulheres?

Obs: Se quiserem conhecer mais sobre os temas deste texto, aconselho a leitura do livro de Alex Ross, O Resto É Ruído, Cia. Das Letras, 2009.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Do romance O Fidalgo e a Camponesa


O FIDALGO E A CAMPONESA:
um romance com final feliz

Este romance, registrei-o em Goiânia, GO., no ano de 1988, mas soube que era muito cantado na cidade Goiás Velho, GO, desde as primeiras décadas do século XX, onde posteriormente, tive oportunidade de documentá-lo. A primeira informante, em Goiânia, na época com 78 anos, Armênia Pinto de Souza, era professora e escritora e pertencia a uma família goiana de atávicas aptidões musicais. Havia dentre eles compositores de modinhas, valsas, canções populares, quase todos cantavam, inclusive na igreja, tocavam violão, piano, ensinavam música. O levantamento feito na cidade de Goiás levou-me às irmãs Lucy Gomes Pinto Veiga Jardim e Irany Gomes Pinto, de 80 e 78 anos respectivamente, conhecedoras do romance que fazia parte do seu dia-a-dia, desde crianças. Informaram que sua mãe, nascida em Goiás em 1882, sempre o cantou. Recordavam-se também de tê-lo visto representado em forma de teatro, com cenário e indumentária de época, no Colégio Sant’Anna, de irmãs dominicanas francesas, onde estudaram.
O Fidalgo e a camponesa conta, em forma de diálogo na primeira pessoa, o assédio de um rico aristocrata à uma humilde pastora que recusa o oferecimento de riquezas e faustos que lhe custariam a honra. A modesta camponesa mantém-se firme e despacha o arrogante fidalgo, o que acaba configurando uma reação às estórias nas quais as moças são sempre vitimadas e, às vezes, morrem no final. Como no romance da Silvaninha, por exemplo, vítima do amor incestuoso do pai, ou Iracema, martirizada pelo padrasto.
A temática dos romances conduz tradicionalmente a um desfecho trágico. Lembremos o romance de Dom Jorge e Dona Juliana, ele pertencente à nobreza e ela uma moça pobre, que acaba envenenando o amado ao saber que ele se casará com outra; o romance do Antoninho, garoto que mata o pavão do diretor da escola, é morto por ele e vingado pelo pai; os romances do ciclo do Boizinho, de caráter bem brasileiro, que canta as tristezas do boi, consciente de que vai sendo levado para o corte
Daí o título que dei a este texto: um romance com final feliz.
O gênero romance é definido por Rossini Tavares de Lima (em “Romanceiro Folclórico”) como poesia dramática cantada, eis que carrega o caráter intrínseco do drama, como se pode constatar pela sua presença no teatro folclórico. Às vezes pode servir de cantiga de ninar e até para brincadeiras infantís. Elemento essencial é a forma narrativa que comumente se inicia com um narrador, transfere-se aos personagens e retorna a ele, no esquema do romance tradicional ibérico. É um gênero universal, presente no cancioneiro ou romanceiro de grande parte das culturas européias. O termo Romance designava o uso da língua “romance”, vale dizer, do espanhol falado na Península Ibérica, ao contrário do usual latim. Os jograis, no século XIV chamavam “romanz” a velhos poemas cantados. Tavares de Lima reporta-se à ligação do romance com as modas ou modas- de- viola brasileiras, graças à cantoria de sentido narrativo.
Segundo Câmara Cascudo (“Dicionário do folclore brasileiro”), romances são poemas cantados que vêm dos séculos X, XI, XII - como as canções de gesta - recriados nos séculos XV e XVI. A princípio apresentados nas cortes, passaram depois ao contexto popular, buscando mais a emoção e o lirismo do amor, num processo de acomodação, inclusive abraçando novos motivos. Guardou, porém, o modelo antigo. Em Portugal, no século XVI, o romance esteve em voga, como nunca. Muito prestigiado na Península Ibérica foi trazido ao Brasil pelo colonizador, assim como para toda a América Espanhola.
O romance, em Portugal e Espanha, tem mais de uma conotação: primeiro, um gênero de composições, com determinadas regras; segundo, um período social bem definido e que deixou marcas indeléveis em tais composições. É o que ensina Amadeu Amaral, no livro “ Tradições populares” .
Em “Introducción a la música popular castellana e lionesa “(Burgos, Espanha, Junta de Castilla y León, 1984) Miguel Palacios Garoz documenta e discute a riqueza de romances que possui o folclore castelhano. Escreve que às vezes se lhe intercala um estribilho, a intervalos regulares, o que se fazia também em tempos antigos. Destaca o acervo de romances de temática religiosa, como: “Los mandamientos”, “Los sacramentos”, “Pajaritos de Santo Antonio”, e outros da Natividade, Quaresma e Páscoa. Acrescenta que os primeiros romances escritos datam do século XV, embora se saiba que existiam na tradição oral desde antes do século XIII.
Dentre os gêneros líricos- musicais do México, o “Corrido” é um dos suportes da literatura genuinamente mexicana, conservado em folhas soltas. Vicente T. Mendoza (“Corridos mexicanos”, México, Fundo de Cultura Economica, 1954) estuda sua procedência, do romance castelhano, nos temas épicos acerca de heróis e façanhas guerreiras; pelo que encerra de lírico, deriva da copla e da chácara: relatos sentimentais, principalmente amorosos, próprios para serem cantados. Em suma, o “Corrido” é um gênero épico-lírico-narrativo, em quadras de rima variável, forma literária sobre a qual se apoia a frase musical, composta geralmente de quatro membros. Relata fatos que motivam poderosamente a sensibilidade popular o que o aproxima do romance, não só pela forma como pela motivação.
Bruno Nettl, em “Música folklórica y tradicional de los continentes occidentales”, no capítulo em que analisa a música de França, Itália e Espanha, informa que crianças, em brincadeiras e jogos, costumam entoar “romancillos” de velhos tempos, com estórias e lendas que contam de amores e fatos ocorridos a reis e princesas ou se referem a milagres de santos. São narrações curtas, ingênuas ou pitorescas, de temática variada, que têm relação com o mecanismo da brincadeira. Algumas delas se prestam a jogos mímicos, com intervenção de passos de dança. Seu estilo é sensível, alegre, movimentado. Musicalmente, predomina o modo maior, a métrica de dois ou três tempos em combinações simples; o desenvolvimento melódico, embora variado move-se regularmente em fraseado simétrico.
Dois escritores portugueses, pai e filho, Joaquim Alberto e Fernando de Castro Pires de Lima, publicaram o livro “Romanceiro minhoto” (Porto, Portucalense Ed., 1943), com coletânea de 58 romances coletados na região do Minho, Portugal. Citam pesquisas de Carolina Michaëlis de Vasconcelos que fala da transmissão dos romances em folhas soltas, a princípio manuscritas, depois impressas. Mas acredita, a pesquisadora, que a transmissão mais eficaz deva ter sido através da oralidade: a palaciana, de corte em corte; a popular, de boca a boca. Lembra ela que nos séculos XV e XVI houve íntima comunhão e quase unidade de manifestações musicais entre Castela e Portugal. Havia intercâmbio de compositores e intérpretes entre as duas cortes.Gil Vicente, mesmo, criava e cantava “cantigas”. Os dois autores citados organizaram o cancioneiro mais ou menos por variantes temáticas, como o tema dos “meninos prodígios que falam antes tempo”; o tema “Bela Infanta” e variantes; o tema “Pastorinhas” e variantes, registrado por Almeida Garret
No livro História da Música Ocidental, de Grout. & Palisca (Lisboa, Gradiva, 1988) encontramos com o título de Trovadores e Troveiros, o seguinte:
“[...] A substância poética e musical das canções de trovadores e troveiros não é, regra geral, muito profunda .... Há baladas simples e baladas em estilo dramático que requerem ou sugerem duas ou mais personagens. [...] Um dos gêneros mais cultivados era a pastourelle (pastorela), um dos tipos de balada dramática. O texto de uma pastorela conta sempre a seguinte história: um cavaleiro faz a corte a uma pastora que, geralmente após a resistência inicial, acaba por lhe ceder; em alternativa, a pastora grita por socorro, aparecendo então o irmão ou namorado que põe o cavaleiro em fuga, não sem que antes seja travado um combate entre ambos. Nas pastorelas mais antigas toda a narrativa era monologada; o passo seguinte consistiu em fazer do texto um diálogo entre o cavaleiro e a pastora. Mais tarde, o diálogo passou a ser não apenas cantado, como também representado; quando se acrescentavam um ou dois episódios, surgindo o pastor em socorro de sua amada com um grupo de companheiros rústicos ... o resultado era uma pequena peça de teatro com música.”

Neste contexto poderia ser inserido o romance O Fidalgo e a Camponesa, não só pelo caráter pastoral e bucólico como pelo episódio da sedução caracterizando a arrogância do nobre rico e poderoso e o desrespeito à moça pobre e desprotegida, tendo porém um desfecho diferente. Estendendo-se para a questão de gênero, homem/mulher, a mulher humilde e modesta derrota o nobre fidalgo.
Este Romance, de raízes tão antigas e tradicionais, vindo do tempo dos trovadores, é vivo na prática e na função de narrativa lírica mantida pela oralidade. E abre portas a uma análise mais profunda, sob o ponto de vista literário, musical, sociológico, até mesmo um estudo de comportamento, isto é, psicológico, no aspecto moderno da emancipação da mulher. O que não é nossa proposta neste momento.

O FIDALGO E A CAMPONESA- eis o texto

“- Gentil pastora, ouve um estranho
deixa o rebanho, vem me escutar
pois que perdido há mais de um´hora
vago pastora neste lugar.

-Senhor bons dias, benvindo seja
tranqüilo esteja que a vila é perto.
Siga essa estrada bem direitinho
não há caminho mais curto e certo.

Extensas léguas hei caminhado,
estou prostrado não tenho ar.
Vê se me indicas qualquer um pouso
onde o repouso possa encontrar.

- Senhor bem vejo que vós sois nobre
meu lar é pobre vêde-o acolá.
Se aos vossos brios não há perigo
meu triste abrigo não longe está.

-Muito obrigado gentil morena
mas, ó que pena, não posso ir.
Tu meiga e bela, de encantos cheia,
cá desta aldeia deves fugir.

- Ah! Não que eu tenho vida folgada
sou muito amada de coração.
Meu nome adeja aos sons cadentes
dos versos quentes de uma canção.

- Isto que vale, bela serrana,
se uma choupana só tens por lar?
Deixa este sítio na soledade
vem à cidade viver, gozar.

- Ai, morreria lá na cidade
só de saudade da gente nossa.
A viver rica mas esquecida
prefiro a vida na minha choça.

- Mas se eu trair-te nada tu sofres,
dou-te os meus cofres, juro por Deus.
Habite eu pobre numa choupana,
tu, soberana nos paços meus.

- Ah, não aceito que é vil desdouro
guarde o tesouro meu bom senhor.
Para tornar-se rica princesa
a camponesa não vende amor

- És muito pobre pr´amor tamanho
segue o rebanho mulher grosseira
Ah, como és tola, como eu te iludo
não passa tudo de brincadeira.

- Se em vossas pompas, a vós senhores,
vendem amores as cortesãs,
essa fraqueza das damas nobres
não mancha as pobres das aldeãs! “

(Partitura acima. Clique para ampliar)